Cinema vivo: Memória, McLuhan, Marker

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por Wilson Oliveira, colaborador blog mLC

 

Cinema vivo: Memória, McLuhan, Marker, palestra teoria e prática no Live Cinema apresentada na 5mLC (2012).
Para Marshall McLuhan, Chris Marker e para meu pai (In memoriam).
“Qual o grande negócio de ser ao vivo?

“O grande negócio é que isso torna cada momento único como na vida”

(PAUL SPINRAD)

Gostaria de agradecer imensamente a organização da mostra e parabenizar o Luiz Duva e a Marcia Derraik e a todos os envolvidos nessa edição da Mostra por essa oportunidade.  Aos meus orientadores Leila Ribeiro e Tom Gunning e a companheira de vida, Márcia Bessa os obrigados de sempre. Também falar do prazer que sinto em dividir esse momento com o Fernando Velázquez, que pode com muito mais propriedade do que eu falar sobre essa relação entre teoria e prática, pois vive mais intensamente essa necessidade prática como ótimo artista que é e ainda pesquisa e leciona. E por fim, a todos aqui.
Vou tentar e conseguir ser breve apesar do tema em questão não nos permitir essa brevidade, pois por tratar de algo vivo, da ordem da vida, de teoria – contemplação – e de prática – atuação – no cinema ao vivo nos leva a pensar nas formas a priori da intuição como observou Kant: tempo ( forma do sentido interno) e espaço (forma do sentido externo). Mas a questão deixa de ser kantiana quando a possibilidade da experiência do conhecimento entra no terreno da experiência dos acontecimentos. E mais, quando entramos no terreno do instante e de um instante que se desdobra em efêmero e ao mesmo tempo mnemônico e, por isso, eterno. E de um espaço que se amplia ou que se expande. Cinema mais que expandido para novos lugares, para outros mundos fora o da tela.

Minha pesquisa de doutorado em Memória Social sob orientação de Leila Ribeiro na Unirio, cujo estágio conhecido como doutorado-sanduíche acabei de concluir na Universidade de Chicago, sob a orientação do professor Tom Gunning, hoje se encontra pensando as performances em áudio e vídeo, o mapping, o vjing em sua relação com a memória do cinema, a memória dos filmes, mas sobretudo do espectador e do artista, mas de um artista que como percebeu Gene Youngblood é um “cientista do design”, sinestésico, maquínico e tecnoanárquico ( YOUNGBLOOD, 1970). E ainda Artista como Chris Marker, que reivindicava para seu cinema em um filme em cd-rom chamado “Im memory”, “a humildade e os poderes de uma Madeleine”. Artista em serviço da memória, de uma memória social, e não menos criativa. Mnemocinema me parece ser uma interessante questão no trabalho do performer audiovisual em tempo real.

Breves comentários sobre a memória – Uma abordagem mcluhaniana.
A memória já virou há muito tempo tema nobre dos filmes. Dos irmãos Lumière a Chris Marker.  De Dziga Vertov a Alain Resnais. De Woody Allen a Michel Gondry. Dos Segretto a Marcelo Masagão. Godard, Glauber, Greenaway. O cinema como arte da memória ainda passeia pelas inquietações das perguntas, talvez delas nunca se consiga sair. Memória de que, memória de quem? Memória que a todo tempo reescrevemos como os performers reescrevem o cinema. Ressignificam filmes, imagens, etapas, dispositivos do cinema. Brakhage Digital, Frampton não mais em frames, mas em pixels. De tema nobre nos filmes, a memória com o live cinema é condição sine qua non. Só fazemos (só pensamos e executamos) live cinema, pois uma memória coletiva do cinema se faz presente…

As memórias hoje, com algumas novas manifestações do audiovisual que se pautam pela construção ao vivo de imagens e sons – seja na materialidade das superfícies,seja na imaterialidade das redes de informação se direcionam a um novo e fecundo universo de possibilidades para a estética contemporânea. Miríade de possibilidades para o cinema ao ser executado e pensado como e através da memória como se delineia em sua modalidade ao vivo. No ao vivo, o meio é mais e mais a mensagem para já lembrarmos McLuhan.
Minha primeira memória do cinema é especificamente a de um lugar. De uma sala de cinema. De uma sala de cinema no centro do Rio de Janeiro, hoje fechada como tantas outras (BESSA, 2009). Lugar de minha memória. Essa memória no cinema enquanto criança e ao lado de meu pai é a de um desenho animado. Não me lembro qual desenho, mas as cores, a trilha sonora, os rápidos movimentos, a arquitetura do extinto Metro Boavista na Cinelândia ainda ecoam nas retinas, reverberam no meu radioolho e cineolho. Como refletiu o artista – que já nos anos 20 do século passado renegava o rótulo de cineasta, preferindo se classificar como Kinok – Dziga Vertov: O cinema é também a arte de imaginar os movimentos dos objetos no espaço. […] Desenhos em movimento. Esboços em movimento. Teoria da relatividade projetada na tela. NÓS saudamos a fantástica regularidade dos movimentos. Carregados nas asas das hipóteses, nosso olhar movido a hélice se perde no futuro… Viva geometria dinâmica, as carreiras de pontos, de linhas, de superfícies, de volumes (VERTOV, 1983, p.251).
Nossa memória não é de um drama, nem de comédia. Ao contrário da história que se repete como farsa, que ao se apresentar pela primeira vez é tragédia e logo depois se torna cômica, (MARX, 1986, p. 15) memória como imaginamos é uma dança de imagens e sons colada no presente. Nem farsa, nem chiste. Nem só ficção, nem também só documentário. É sim, memória como uma imagem desenhada, como uma superfície, um volume, uma dinamismo espaço-temporal, uma série de pontos e linhas como hoje desenham com imagens os performers, os vj’s e demais artistas em busca do tempo real – cujo olhar também se perde no futuro – que também renegam por vezes o rótulo de cineastas, de um cinema que não tem nem horário definido, nem gênero; que não precisa obrigatoriamente de uma sala de cinema. Que precisa de diálogo com a tecnologia, mas não é por ela determinada.

Refletindo os meios audiovisuais, McLuhan já dava pistas para esse cinema ao vivo no seu eterno diálogo entre meios, na sua contribuição singular sobre as tecnologias ou extensões do homem.  Em um de seus mais curiosos momentos, o autor nos diz que com a televisão nós somos a tela. Em outro, McLuhan considera que meios como cinema, rádio e TV seriam “salas de aula sem paredes” (1964, p.318). Como nos lembrava Marshall McLuhan, o conteúdo de um meio “aquilo que na verdade é outro meio” (1964, p.23) é fator emblemático ao pensarmos o cinema que se patrimonializa mais e mais nos museus, galerias e fachadas por exemplo, e em outros tantos espaços. Como aponta Aumont essa presença do cinema mais e mais nos museus, por exemplo, “fez com que fosse apreendido o seguinte: o cinema é, primordialmente, uma projeção. Cinema que “se projeta e se expõe também” (2008, p.84) Essa apreensão nos parece – e parecia para McLuhan – o cinema em tempo real. O cinema ao vivo – em suas modalidades diversas o vjing, aving e as projeções mapeadas – parece se fundamentar em uma frase dada na já famosa entrevista a Playboy que McLuhan em que frisava seu método exploratório. “Eu quero mapear novos terrenos no lugar de mapear pontos de referência” (MCLUHAN, 2009. Tradução nossa). Talvez mapping seja isso, uma exploração de novos terrenos para o cinema…

Esse explorar, vasculhar – esse cinema de camadas de arquivos, e o termo arquivo aqui associamos a Derrida, “penhor do futuro” (DERRIDA, 2001, p.31) – volta-se agora novamente para minha lembrança, memória da sala de cinema e das animações há 30 anos foi enxertada um pouco depois pelo vídeo. Quando em 1986 o primeiro VHS apareceu em casa também por intermédio de meu pai e passei a ver filmes mais em casa do que no cinema, o vídeo se estabelecia como suporte para ver filmes. Para criar uma memória da arte cinematográfica. Alguns filmes lembro e não posso deixar de mencionar a importância de lembrar os filmes que esqueço, de esquecer esse cinema em vídeo por alguns momentos. Filmes em vídeo, enquanto nessa época a vídeo arte se amadurecia e mesmo que fossem ainda poucas as mostras, poucas as Sonias e Letícias, muitas eram as questões para o vídeo. Uma delas McLuhan anteviu, como anteviu que o computador era o LSD do mundo dos negócios. Permitam mais uma citação a Marshall McLuhan: Em termos de estudo dos meios, torna-se patente que o poder do cinema e armazenar informação sob forma acessível não sofre concorrência. A fita gravada e o vídeo-tape viriam a superar o filme como armazenamento de informação, mas o filme continua a ser uma fonte informacional de primeira grandeza […] Nos dias atuais, o cinema como que ainda está em sua fase manuscrita; sob a pressão da TV, logo mais, atingirá a fase portátil e acessível do livro impresso. Todo mundo poderá ter seu pequeno projetor barato, para cartuchos sonorizados de 8 mm, cujos filmes serão projetados como num vídeo. Este tipo de desenvolvimento faz parte de nossa atual implosão tecnológica. (MCLUHAN, 1964, p.327)

Essa implosão culmina com um terceiro momento que nem McLuhan, Marker presenciaram. Que esse ano começou aqui ontem a noite. Não pude e nem posso mais trazer meu pai para admirar o belíssimo trabalho do Duo VjSuave que faz com vídeo digital, animações e poemas  fora da sala de cinema, resgatando minhas memórias do cinema e do vídeo.  Que projeta em movimento de um suave pedalar e de um colorido grafite digital memórias das animações. Um cinema não como instrumento de poesia como brilhantemente afirmou Buñuel, mas poesia em tempo real no cinema como instrumento. O projetor é mesmo um performer como afirmou Holis Frampton. Estamos às voltas com uma memória ficcionalizada, imaginada, criadora que não pode esquecer a memória histórica, a construção memorialística. Há uma história do cinema, mas há uma memória-cinema desenhada em camadas e com uma geometria, uma arquitetura dinamizada, arquitetura como “música petrificada”, aproveitando a noção de Goethe (1839, p.282). Espaço agora povoado com imagens e sons em movimentos regulares e irregulares do que se convenciona chamar live cinema.

Comentários breves sobre Marker.

A questão da memória que tentamos explorar é tônica na obra do já saudoso Chris Marker. Atinge seu ápice questionador no projeto “Immemory”, cd-rom lançado exclusivamente para Mac. A obra deriva de uma exposição. Partindo do pressuposto de desconstruir a ideia de que “tendemos a ver nossa memória como um livro de história” (MARKER, 2008), mas sim a memória como uma terra de contrastes, um filme em que o espectador pode dar os caminhos para a narrativa e ativar memórias  involuntárias num filme dentro da memória é bastante próximo das experiências do live cinema.

Chris Marker é uma intensa a seminal figura no campo da cultura visual contemporânea, mas até recentemente um de seus mais bem guardados segredos. Em uma carreira impressionantemente diversificada que agora abrange mais de meios século, Marker incluiu em sua obra escritos, fotografias, filmes, vídeos, instalações, televisão, multimídia com a finalidade de investigar a profunda memória cultural do século XX pelo filtro da sua sensibilidade incondicionalmente distinta, de início erudita e engraçada, carinhosa e incisiva (LUPTON, 2005, p.7). Não um cineasta da história, mas de momentos, de tempos e memórias. E que tem na sensibilidade e na sensorialidade marcas centrais. Desde Les Astronautes (1959), sua “animação” ao lado de Walerian Borowczky, Marker repensa o destino do cineasta que em função da memória pode refazer o mundo do cinema. Rastros, traços, imagens de arquivos, fotografias, trechos, recortes de jornal. Até mesmo um prenúncio de mapping aparece em Les Astronautes. No seu filme mais conhecido, o fotoromance “La Jetée”, a memória, o museu (“todo homem é um museu” é um coda no filme), a infância em meio a fotografias (a partir de uma imagem, a da face de uma mulher) celebra-se lembrança e esquecimento. Em Immemory: Marker estará porventura menos interessado na ideia de fluxo temporal do que na ideia de “lugar” menos interessado na ideia de narrativa do que, como ele refere, na ideia de “geografia”. (QUINTAIS; PIRES, 2010, p.217-218). Ele parece estar  interessado nas interências, nas camadas de possibilidades que podemos criar junto, co-criar. Coadunar uma teoria do cinema com a prática que hoje temos em mãos e mentes. Vj’s, performers a/v, artistas contemporâneos do som e da imagem, uma nova fantasmagoria ronda o mundo, não só a Europa de Marker e Marx; uni-vos. E que fique claro que evidentemente isso não é um manifesto, só uma lembrança na celebração da independência dessa terra que precisa ainda aprender a valorizar seus verdadeiros artistas do audiovisual.

Referências:
BESSA, Márcia. Entre achados e perdidos: Colecionando memórias dos cinemas de rua da cidade do Rio de Janeiro: Projeto de tese (Doutorado em Memória Social). Rio de Janeiro: UNIRIO/PPGMS, 2009.

DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

GOETHE, Johann Wolfgang. Conversations with Goethe. Massachusetts: Hilliard, Gray and Co, 1839. Disponível em: http://books.google.com/books/reader?id=pN1M26 53ViAC&hl=pt-BR&printsec=frontcover&output=reader. Acesso em: 30 jul. 2011.

IN MEMORY, de Chris Marker, 2002 (FRA), documentário, Cd ROM.

LUPTON, Catherine. Chris Marker: memories of the future. London: reaktion books, 2005

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural , 2000.

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1986.

McLuhan, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
__________. The playboy Interview. In: http://www.nextnature.net/2009/12/the-playboy-interview-marshall-mcluhan/. Acesso em 25 dez. 2011.

RIBEIRO, Leila Beatriz. Mais do que posso contar: coleções, imagens e narrativas. Projeto de Pesquisa (Programa de Pós-Graduação em Memória Social) – PPGMS/UNIRIO, Rio de Janeiro, 2006.

QUINTAIS, Luis; PIRES, Ana. A oficina da memória: algumas anotações sobre Chris Marker e o seu projeto Inmemory. In: AVANCA Cinema Tomo I. Avanca: Edições Cine-clube, 2010.

SPINRAD, Paul. The vj book. New York: Paperback, 2008.

YOUNGBLOOD, Gene. Expanded cinema.  New York: E.P Dutton e Co, 1970.

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Wilson Oliveira é formado em Comunicação Social. Mestre em Comunicação e Cultura e doutorando em Memória Social PPGMS/UNIRIO. Professor da Universidade Estácio de Sá, músico e artista experimental.

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