SOLU

KAAMOS TRILOGYÉ

Kaamos Trilogyé um tríptico sobre as relações de um indivíduo, o espaço natural que o rodeia e o ambiente
que modula sua sensibilidade durante a preparação, quase mística, para os meses de escuridão na Finlândia:
“kaamos”.

“Deves fazer o bem a partir do mal, já que é a
única coisa de que dispões.”
(Robert Penn Warren)

Obra total, na qual o relato, sempre em potência, se condensa em poucas imagens repetidas que se re-combinam num tempo de suspensão expandida. Num estado de meditação, um quase transe, Mia Makela justapõe a abstração narrativa do videoclipe com as práticas pictóricas, abrindo um campo raro nesta nova sensibilidade poética do audiovisual. As sombras articulam a visão de duas mulheres que adentram um bosque em busca de uma cura mágica para a ceguei- ra e, ao tentarem sair, não encontram o caminho de volta. Ou elas se perderam, ou o mundo mudou diante da escuridão finlandesa que se aproxima. Latente está a figurado guru, não apenas como pessoa que dissipa a escuridão da ignorância, como também em seu sentido literal: “alguns textos indicam que as duas sílabas da palavra sinalizam o movimento da escuridão (gu) e da luz (ru).”
Em Kaamos, a história central é a busca de luz na escuridão de um modo xamãnico digital, como uma experiência física de sondagem interna. Retrato estruturado em três momentos episódicos do fim dos dias luminosos dos países do círculo polar ártico. “Uma viagem ao coração da escuridão”, que, ao modo de Stalker, fixa poeticamente o tempo, sublimando um rito iniciático íntimo. Numa aparente homenagem a Tarkovski, Mia Makela parte das idéias dramáticas aristotélicas ao concentrar o relato num mesmo espaço durante uma jornada solar. No entanto, o tempo é parte indissociável na configuração do relato: embora pareça não evoluir, algo muda. A pintura eletrônicase modifica constantemente, dinamizando sua profundidade por acumulação de momentos. Trata-se de um exemplo de “live cinema” no qual a história se compõe por intuições e sensações (em vez de textos lineares) e através desoftwares de vídeo em tempo real que conseguem fazer evoluir as situações em função da improvisação anímicada autora como resposta às reações de seu público: guiando-o xamãnicamente entre a sombras da escuridão da salanuma espécie de diálogo de empatias pictóricas (tanto sonora quanto visualmente). O processamento do sinal de vídeo é essencial para descobrir imagens que não existem, como o fogo, “que realmente é a areia que se move no fundo de uma fonte e, ao se mesclar com o bosque, aparece como fogo fazendo o software participar metanarrativamente no vídeo (uma alquimia digita diante da qual a terra se converte em fogo).”

Um processo ativo que nunca dá uma peça por terminada, “o vídeo é só um momento na vida da performance, Kaamosjá é diferente de quando fiz o vídeo no qual apareciam novas combinações que não havia experimentado antes. Deveria fazer um novo vídeo a cada ano sobre a mesma performance? ”

Mia Makela (a.k.a SOLU) é artista multimídia, professora, pesquisadora e curadora residente em Berlim.

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